COMO INTERPRETAR A JEITO A MITOLOGIA

Manuel B. Dans
Saturno, de Francisco de Goya (fragmento).   ©Museo Nacional del Prado
A mitologia, apresentada en contos e lendas de tradiçom oral ou reelaborada em textos escritos, constitue um dos mais valiosos presentes que nos conseguirom transmitir as geraçons anteriores. Paradoxalmente é também um dos que pior se compreendem; no melhor dos casos encontramos explicaçons paternalistas e condescendientes como a que atualmente oferece a Filosofia:

Procurava-se dar umha resposta acerca dos
fenómenos naturais e da origem do mundo;
nom eram certas, evidentemente, mas conseguia-
se a finalidade práctica de saciar essa
curiossidade.

Esta argumentaçom, ainda que piedosa, envia porém umha mensagem ao subconsciente do ouvinte: as gentes do passado eram crédulas e tontas, enquanto nós, os homens e mulheres modernos, somos inteligentes e sofisticados. Tudo um complexo de superioridade de que hoje em dia nom se livra nem a História nem a Arqueologia (nem tam sequer a Ufologia: as maravilhas do passado som sempre obra de extraterrestres), mas que topa com inúmeras evidências em contra, a mais importante delas, para o caso que nos atrae, é que esquecemos que a reta interpretaçom da mitologia debe fazer-se tendo mui presente que está contada em chave de metáforas, alegorias, simbolismos e, em geral, expressa-se em linguagem poética. Para além do mais, o que nela se nos narra é, por via de regra e salvo adulteraçons fáceis de detectar, verídico.


LITERALIDADE E SUPERFICIALIDADE

Se, por exemplo, se nos relata que em épocas remotas o território que no futuro será a Galiza foi invadido por umhas serpes tam abundantes que a gente tinha de subir às árvores para as evitar, e que, ainda acima, essas serpes falavam, o que devemos entender é que adevandita invasom foi causada por um povo humano que tinha por tótem a serpe (os saefes) e que provocou a fugida dos habitantes anteriores para as montanhas. Porém, continuamos a interpretar as narraçons mitológicas com mentalidade superficial ou materialista, isto é, ao pé da letra, a condená-las, assi, a parecerem simples disparates. Como veremos a seguir nom é um defecto exclussivo da nossa época; os erros na interpretaçom dos mitos podem ser tam antigos como a própria miltologia.

O famoso lenço do pintor espanhol Goya Saturno a Devorar nos seus Filhos, que mostra umha horrível cena de canibalismo, constitue mais outro caso de interpretaçom literal: os filhos de Saturno, os deuses, som na verdade os princípios criativos da vida na Terra, que na altura ficavam recluídos temporariamente; quando por fim Saturno, que é o deus do tempo (Kronos, em grego), é superado, os deuses podem atuar livremente e dam lugar às quase infinitas formas de vida, inimaginavelmente variadas, que povoam o planeta; daqui devala precissamente a promiscuidade sexual que se lhes atribue e que nom é outra cousa que umha alegoria da sua enorme criatividade (imaginemos umha margarida ao lado d´um estegosaurio, ambos nados da mesma idêntica célula de vida original, um protoplasma primário de hai três mil milhons de anos).


RELATOS ASTROLÓGICOS DE FUNDO

Umha boa maneira de nos orientar na hora de entendermos a jeito algúns textos mitológicos é nom perdendo de vista que muitas histórias som descriçons encubertas de fenómenos astrológicos. O mito de Hércules e as suas doze provas é umha metáfora do espírito solar e o seu passo polos doze signos do zodíaco. Igualmente, na mitologia judeu-cristiá, chamada etnocentricamente História Sagrada (ou todas som mitologias ou todas som histórias sagradas) os doze apóstolos representam, também, o zodíaco, já que o próprio Cristo é o espírito solar que nasce no solstício de inverno (25 de Dezembro), quando a constelaçom de Virgo se situa com ele no leste (facto malinterpretado como que “nasce d´umha mae virgem”); igualmente se nos diz que morre alançado na cruz polo legionário Longinos, o que nom é outra cousa que umha alegoria do passo do sol, nessa época do ano, pola constelaçom de Sagitário, a qual, como sabemos, é representada por um arqueiro. As exitosas tentativas posteriores por materializar Cristo como umha personagem real, de carne e oso, evidência mais outro exemplo de literalidade que neste caso (como em muitos outros) foi intencionado; séculos e milenios antes que Cristo mitos solares como o de Attis, em Frígia; Mitra, em Pérsia, ou Krishna, na Índia (todos nados em 25 de Natal, de mae virgem, com cada um a sua dúzia de apóstolos, que morrérom pola Humanidade e ressucitárom…) sufrirom um processo de literalizaçom até virarem para supostas personagens históricas.

Os benefícios desta reinterpretaçom interessada da mitologia podemos constatá-la facilmente se repararmos na atual cidade de Compostela e na invençom dos restos do apóstolo Santiago. Este tipo de fraudes nom se ideárom na Idade Media, senom que se trata d´um fenómeno muito antigo que se repite ciclicamente na história; já na antiga Grécia existiam rivalidades entre as distintas cidades porque cada umha afirmava que possuia a verdadeira cova onde nascera Zeus, lugares que tornavam aginha em centros de peregrinaçom e turismo.


VIAGENS INTERIORES E XAMÂNICAS

Por último, muitos relatos lendários, sobretudo os protagonizados por heróis que accedem a reinos aparentemente fantásticos (pense-se em Ulises, Perseo, Jasón ou, mais modernamente, em Alícia no País da Maravilhas ou n´A Viagem de Chihiro) , para neles cumprirem umha missom, descrevem na verdade viagens interiores, xamânicas ou iniciáticas. Som accesos a estados superiores de consciência que exploram a vastedade dos reinos situados além das três dimensons quotiás. Som estes os hábitats dos monstros míticos, das mouras, dos sabios, dos demos, das armas mágicas, dos animais de poder, dos deuses e, em geral, das personagens arquetípicas que perfilara Jung. As semelhanças e os paralelismos existentes entre estas histórias, procedentes às vezes de lugares do mundo que nunca tiveram contacto entre si quando as criárom (compare-se, por exemplo, o mito grego de Orfeio e Eurídice c´o mito japonês de Izanagi e Iazanami) outorga-lhes credibilidade e proporciona à Humanidade um conceito mais elevado de si própria, ao situá-la mui perto d´umha divinidade à que pode ter livre acesso.
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