TELEMÓVEIS E PERDA DE QUALIDADE DE VIDA

Manuel B. Dans

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Talvez por todo isto, quando vim pola primeira vez um homem equipado cum telemóvel nun local público (contava eu vinte e muitos anos), pensei que se tratava dum extravagante, um friki, alguém que se estava a fazer dano a si próprio e que queria virar para cabina de telefones ambulante. Ou isso ou talvez só era um narcisista que gostava de os demais ouvirem em público as suas conversas privadas (eu, na casa, quando falava polo telefone fixo, sobretudo ca noiva, fechava pudorosamente a porta).


Quando era um meninho os meus pais ensinavam-me que a cada quarto da casa lhe correspondia umha atividade específica (às vezes podiam ser duas). Assi, por exemplo, o comedor era para jantar, o escritório para estudar ou para modelar plastilina, a sala para olhar a televisom e a cama para durmir: nom devia misturá-los se quiger levar umha vida ordenada e sana. Eu, ao princípio, fazia caso omisso do conselho e tinha por costume realizar as tarefas da escola enquanto via na televisom a programaçom infantil. Mui cedo dei-me conta de que aquelas tarefas, assi realizadas, saíam-me mal: eram chambonas, distraídas, consumiam mais tempo do necessário e nom as assimilava bem. E nem só isso: descubria, ao mesmo tempo, que nom desfrutava plenamente do visto na pantalha, de modo que afinal nom fazia a jeito nem umha cousa nem a outra. Contudo, ainda me faltava muito para assimilar o porquê da ensinança doméstica: uns anos depois, de rapaz, conseguira introduzir umha pequena televisom no meu dormitório, que olhava à noite, enquanto jazia na cama. Comecei a notar entom que, após a sessom televisiva, nom conseguia prender no sono tam facilmente como antes; que me invadia umha estranha e inexplicável sensaçom de desassossego.


ESPARGIMENTO E DEPENDÊNCIA
Ca posterior invasom dos celulares as normas paternas que apreendera de “cada cousa no seu lugar” voárom polos ares. Se considerarmos a consulta ao aparelho (em essência umha pantalha) como o mais parecido a olhar a televisom, ocorria que a maioria da gente transformava o mundo inteiro na sua sala de televisom e que, do mesmo modo que figera eu cas tarefas escolares e a programaçom infantil, nunca estava ao que estava: reunia-se com amigos e familiares, mas, ocupada co celular, mal falava com eles; sentava nos restaurantes, diante da parelha, e quase nom se olhava mutuamente, atarefada com cada um a sua rede social; fazia o amor co telemóvel aceso, por se acaso recebia aquela chamada tam importante, e no entanto interrompia-se para atender vários guasapes estúpidos que nunca eram a chamada esperada; saía de viagem ou fazia o Caminho de Santiago para desconectar (desligar-se) do mundo, mas levava o celular consigo e cortava de raíz tal possibilidade. Mesmo houvo que tomar medidas legais no caso da conduçom porque se respondiam chamadas enquanto se levava o carro, causa de inúmeros acidentes, como o trágico sinistro ferroviário de Angrois: o único maquinista estava a falar polo aparelho no momento em que tinha de diminuir a velocidade para tomar a curva.

Para quem valorizar o silêncio, a inspiraçom ou a ensonhaçom, quer dizer, para aqueles que desfrutarem do seu mundo interior, caso por exemplo de pintores, poetas, ioguis, cientistas, místicos (algum quedará) ou, simplesmente, pessoas que gostarem do som do silêncio, como dizia a cançom, o telemóvel desvenda-se no pior inimigo possível porque nom serve desligá-lo se antes nom apagarmos a nossa dependência psicológica com ele: no celular concentram-se e personalizam-se as nossas esperanças e os nossos medos; é a porta pola que entra na nossa intimidade e na nossa psique a pressom do mundo laboral e social. O telemóvel impíde-nos retirar-nos completamente para o paraíso do nosso mundo interior ao amplificar e exagerar exponencialmente as demandas do mundo externo. Ao ser um aparelho tam próximo de nós, tam íntimo, arrimado do nosso próprio corpo, atua como um quintacolumnista desse mundo de fóra. Concordo cum colaborador da revista satírica El Jueves em que se os telemóveis existissem desde o princípio dos tempos nunca teriam ocorrido personagens como Buda, Patom, Pitágoras, Poincaré, Einstein, Max Plank, Gandhi ou, mais de perto, poetas como Ramom Cabanilhas (nem tudo vai ser Rosalia!)
MULETAS COM PERNAS SANAS
Cumpre mencionar que as pessoas da minha idade (e doutras geraçons anteriores) tivemos muita mais sorte do que as andainas mais novas porque entom a televisom e as primeiras consolas eram tam aburridas que nom nos quedava mais remédio que brincar polos nossos próprios meios. Para isso tínhamos de recorrer à imaginaçom e à fantasia: assi, o pau da vasoira era o cavalo, a corte da vaca era o castelo que assaltar e o gergom da cama o barco do que nom te podias caer porque o chao do cuarto era o mar e ficava inçado de tabeirons. Hoje as pantalhas dos celulares emitem imagens potentes, cativadoras e tam hipnóticas que muitas crianças educadas com pantalhas já estam a apresentar problemas motrices. O bombardeio visual é tam intenso que a nossa capacidade imaginativa, tam útil para a criaçom artística ou o pensamento abstracto, corre perigo de se ver atrofiada. É o mesmo caso do que acontece ca nossa inteligência espacial e co sentido da orientaçom se recorrermos sistematicamente ao GPS em vez de consultar um mapa; ou ca memória, se deixarmos que seja sempre o celular quem memorice por nós telefones e enderezos; ou ca inteligência numérica se todos os cálculos aos que nos enfrontamos nolos resolverem as máquinas que nos rodeiam; ou, em fim, cas habelências verbais se usarmos constantemente corretores e facilitadores de texto. Porém, enche-se-nos a boca de orgunho ao dizer que vivimos na companhia de aparehos inteligentes (tal e como nos fai crer o mercado) e passamos por alto que, quanto mais inteligentes forem essas máquinas menos o seremos nós. Em difinitiva, que estamos a utilizar muletas quando ainda temos as pernas sanas.
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