OS TOPÓNIMOS DAS FREGUESIAS DE SADA E CARNOEDO

Manuel B. Dans
Bem
porque umhas vezes os nomes de lugar fôrom construídos com línguas
prehistóricas hai muito tempo esquecidas; bem porque noutras ocasons retratam a
psicologia de gentes que morárom no nosso mesmo país miles de anos atrás; ou
também porque descrevem a paisagem tal e como era antes das desfeitas
ecológicas perpetradas ao abeiro da perda da piedade pagá, o estudo da
toponímia, longe de constituir um trabalho pesado, próprio de sisudos
académicos, desvenda-se polo contrário umha tarefa assaz amena e até surpreendente. 


Além disso, muitos topónimos empregam fermosas metáforas, sinédoques ou
pessonificaçons, recursos literários que hoje só se podem encontrar na poesia,
facto que nos empurra a perguntar-nos que classe de pessoas eram aquelas que
con tanto carinho, sensibilidade e exactidom explicavam os detalhes da terra.
Assi, chamavam à caída da água dos rios “fervenzas” (Frevenza ou
Cachom -de “cozer”) porque aquela, ao bater nas pedras, se remexe e adota
a cor branca própria de quando se coze na pota; partes do corpo como as moas da
boca (Mós) aparecem na paisagem para definirem pedras máis ou menos
quadrangulares; a palavra
cotovelo, o lugar onde se dobram os braços, formando um
saínte, contém a raíz prerromana *Cot-, “monte, altura” que na Gram
Bretanha daria nome a Scotland, “terra de montanhas”; lugares como
Mámoa ou Mamoela aludem afetuosamente à presença de túmulos na orografia que
lembram peitos de mulher com intuiçons reencarnacionistas (da mámoa funerária
para a mama da mae); Lás Irmáns de Caleiro, em Vila Nova de Arousa som três
ilhas marinhas muito próximas entre si que parece se dam arrimo mútuo na sua
solidom oceânica; em Sada o TARABELO é um nome dado também com muito jeito metafórico:
o tarabelo é o aparelho, normalmente de madeira, com que se abrem e fecham
janelas e portas, significando neste caso a entrada e a saída para o val.
Também avondam topónimos com desinências em -inho (RAPOSINHOS) ou – ela
(LAMELA) que nem sempre atuam de diminutivos, mas de denotadores de carinho. 


O
MISTÉRIO DE SADA 

A presente aproximaçom dos topónimos das freguesias de Sada e
Carnoedo nom está feita por um especialista, mas apenas por um amador, e está
baseada, sobretudo, no estudo das obras de Cabeça Quiles, C. Arias e C. Aldao. Nom
obstante isto, algúns nomes ficam ainda por desvendar, caso por exemplo, de
Beloi , Taibo e Taibó. A este respeito, soi dizer-se que quando se ignora
qualquer cousa é melhor ficar calado, e é absolutamente certo em todos os âmbitos
exceito neste, pois o silêncio equivaleria aqui a umha página em branco. 

Sada desde Sada de Arriba. Fotografía cedida por M. B. Dans


Pose
Nicólich relacionava o nome de SADA co porto fenício de Sidom, hoje Saida, em
Palestina. Seguindo umha navegaçom de cabotagem aquele povo marinheiro e
comerciante que tomava o seu nome do ave Fénix deixaria um ronsel de sucursais
de Sidom no norte da África, tal e como apacecem hoje nas ribeiras marroquina e
argelina na forma de Saida e Saiada; no sul de Portugal topámos co rio Sadão,
que desemboca na cidade de Setúbal, onde a terminaçom -bal cheira à divinidade cananea
Baal. O problema desta teoria surge ao encontrarmos na longínqua Navarra outra
Sada, Sada de Sangüesa, situada demasiado terra adentro para ser explicada como
conseqüência da navegaçom litoral, e á que se lhe atribue umha origem judia. Em
árabe, por outro lado, é comum a presença da palavra
sada co
significado de “alegre, feliz” muito presente na antroponímia. Otra
via para a pesquisa do topónimo sadense talvez esteja no vizinho Mugardos, onde
o dicionário Madoz regista umha entidade de povoaçom chamada Sadim, cuja
origem, seguramente, tenha a ver cum nome próprio germânico ou latino. Também nom
se deve perder de vista o Sade fracês, conhecido por tomar nome dele o famoso
marquês de Sade. 

Vista de Rio Vao Fotografía cedida por M. B. Dans


RIO VAO é topónimo transparente que nom obstante adoita ir
escrito com “b” . Delata o lugar mais estreito ou menos profundo por onde
se atravessa um rio, o vao, do latim
vadu. No colo de Rio Vao ergue-se o monte de Lixandre,
seguramende de Aleixandre, também chamado Monte das Agulhas, e no interior dele
aparece o Quenlhe ou a Quenlha (depende a quem lho perguntes), do latim
canale,
em alusom ao fojo defensivo do antigo castro que ali existiu. SAMOEDO é
topónimo composto (creio) pola palavra céltica
samon,
que significa verám (daí o seu parente inglês
summer) e umha desinência
latina -etum que em galego torna em -edo co significado de
“abundante”, e aludiria a certas plantas,
sámalos,
hoje chamadas acedas, que povoariam com fartura o lugar nos meses de estio. O
outro nome de Samoedo é Agra das Arcas, quer dizer, “campo de
sepulcros”, em referência a mámoas ou pequenos dólmenes. Por seu turno a
saburra era
o étimo com que antigamente se designavam os pequenos bair- ros dos arrabaldes
das vilas, deonde virá a CHABURRA. De BELOI nom sabemos nada de nada, nem
sequer ventureiramente, mas é tentador, em vista da súper abundância de
toponímia gaélica na Galiza, relacioná-lo com algúm nome próprio celta de raíz
Bel-, “sol, lume”, como ocorre cos topónimos Balmorto ou Baleira,
derivados do teónimo Belenos ou Balar. MORAZOM é a praia de FONTÁM (abundâcia
de fontes), que mostra umha etimologia muito antiga: referímonos à raíz pré
indoeuropeia *Mor-, “pedra”, por ser esta praia muito rochosa e
ocultar no seu seio umha furna com lenda que remete para antigos cultos
litolátricos. Polo seu lado FIGUEIRAS e FIUNCHEDO (de fiuncho) som fitónimos
transparentes, do mesmo modo que PAZOS e RIOS. 


CARNOEDO, TOPÓNIMO INTERNACIONAL 

Em Carnoedo topámos cumha das palavras que os celtas utilizavam para denominar
as moreas de pedras ou as alturas coídas, carn-, complementada co sufixo latino
-edo, funcionando como plural. Nom será estranho, pois, que outros topónimos
carnoedeses concordem entre si na hora de delatarem a composiçom do solo da freguesia,
como acontece co SEIXO (do latim
saxum, “pedra”, que em galego costuma aludir às
pedras de quarço branco usadas como marcos), a PEDREIRA ou mesmo o CARVALHO, do
pré indoeuropeio *Kar-, “pedra” e do gaélico
vaga,
“semente”, quer dizer, “árvore da pedra”. Está Carnoedo
etimologicamente emparentado com Carnota, com Carnac, na Bretanha, ou com Carn
Gwydd, em Gales. À parte dos topónimos que aparecem nos trabalhos
recopilatórios, como Campo das Mantas, Cham da Aldea, Fonte Grande, Fontenla,
Espinheiro, Lamela (do pré indoeuropeio Lam- “lama, lodo”), Pereira, Souto,
Igreja, Pega (a fermosa ave de tam mal agoiro) ou Campo da Cruz, existem
multidom de micro topónimos, muitas vezes deshabitados ou com pocas casas, tais
como Rio do Bispo, Monte das Malvinas, Monte Agudo, Raposinhos, Pumar, Salto,
Agra, Agrela (diminutivo ou afetuoso de Agra, nom *A Grela, com falso artigo,
que na Crunha engendrará o disparate de *La Grela), Gabeira de Abaixo, Gabeira
ou Velha Morta (enganoso topónimo este emparentado co nome germânico Welamot,
formado na base por Bel-, “sol, lume”). Os nomes de acidentes litorais
som também innúmeros: Arnela e Arnela a Velha (do latim
arenela,
“pequena praia”), Fontinha Grande e Pequena, Lobos, Gaiba, Arminteira
(talvez de
armentum, “gando”), Pedralba, Lourido (coa raíz
L´R, “cova de pedra”, igual do que Lourdes ou Lorena), Sanamede (de
San Mamede, devido ao efeito ótico que umha pedra da costa causa a quem a olha
desde o mar, pois afigura-se à imagem de Sam Mamede que se venera na capela do
Cham da Aldea), Corno, Lavadoira, Gradadoira, Arnado (do indoeuropeio *Arn-,
“curva”), Cruz, Camelos, Santo, Amoreiras, Curveiro, Enchousas (lo
latim
clausas, “lugar fechado”), Ladeiro, Loureiro,
Pena Pipe, Sueiros (de suarem os crois co mar?), Gaivoteiro e Auga Mexe. 


Existem,
curiossamente, dous lugares de étimo quase gêmeo que ademais som vizinhos: trata-se
de TAIBO, com acento grave, no -a-, e TAIBÓ, com acento agudo, detelhe este que
os colheitadores toponímicos passárom por alto, fusionando ambos num só. Carecem,
porém, de explicaçom etimológica, de modo que se quigermos dizer qualquer cousa
sobre eles deveremos correr riscos da cavalo da ousadia que lhe é própria à
diletância. A mim, talvez por ser celtista militante, soam-me muito celtas,
ainda que só seja por coincidirem, mais ou menos, co começo do título da obra
épica irlandesa
Tain Bo
Cuainge
(O Roubo do Gando de Cooley), onde Bo
significa, precissamente, “boi”, palavra
de que derivam topónimos como Bóveda, Boebre ou o do rio irlandês Boyne,
consagrado à céltica deusa Bouvinda, a vitela branca. Para a primeira parte,
Tai-, haveria que estudar a possibilidade de estar relacionada co radical
gaélico Tei-, “casa”, como acontece com Teibade (Paradela), traduzido
como “casa de Baddi”.

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