VEGETARISMO, UMHA ANTIGA ARELA HUMANA

Manuel B. Dans

A Carnivoristas como o mitólogo J. Campbell constumam pensar nos vegetaristas (e nos veganos mais ainda) como pessoas sentimentalistas, vítimas dum razoamento fraco e superficial que apenas pode estar inspirado pola imaturidade própria de quem desconhece a vida (incluissive, supom-se, vegetaristas ilustres como Thoureau, Gandhi ou J. Safran Foer). Referem-se, sobretudo, àqueles que decidem deixar de comer animais por motivos de consciência mais do que por razons dietéticas ou ecológicas, embora estes três factores mesturarem-se amiúde. Alegam estes entusiastas do sabor da carne, nom sem razom, este mundo ser, sem remédio, um lugar cruel em que a vida se alimenta da vida e onde a existência dum indivíduo exige em pago a extinçom de outro. 




Umha regra esta em que parece que a entidade Natureza-Deus (ou será talvez o Diabo?) nom nos ter consultado na hora de a conceber; mas, paradoxalmente, dotou a nossa espécie com a suficiente potencialidade sensível como para a julgar abominável. Sobre este alicerce o pensamento vegetarista é visto como produto dos brandos tempos modernos, quer dizer, contrários a umha tradiçom carnívora supostamente eterna. 


Remorsos entre Selvagens e Jainismo 

A história da Humanidade, porém, dinos claramente outra cousa (mais que dizer gritano-lo): a piedade polos nossos irmaos menores (Sam Francisco), é um sentimento que se reitera no percurso dos milénios. Na verdade nunca antes fora a Humanidade, polo menos a respeito dos animais, tam insensível como a é nos dias de hoje. No período Paleolítico, caçador e recoletor, há dúzias de miles de anos, topamos com que aqueles “terríveis” caçadores lhes pediam perdom aos animais antes de os ferirem; com que honravam os seus restos para nom ofenderem os seus espíritos, e mesmo com que se preocupavam por imaginar umha mitologia que castigasse o consumismo. Podemos suspeitar que todas estas precauçons delatavam a forte presença da classe de sentimentos de que os psicópatas ficam eivados, de remorsos. Para além do mais, naquela época nom consideravam as bestas, como hoje, apenas um sinónimo de salsichas ou hambúrgueres: eram, polo contrário, parentes com os que mesmo compartilhavam antergos; chamavam-lhes irmao urso e irmao lobo, e constituíam totems ou modelos de virtude que imitar. Acreditava-se entom na transmigraçom das almas, na viagem que ela fai através das diferentes formas de vida. Muito tempo depois o druida da mitologia galego-irlandesa Amergim presumirá de se lembrar das suas passadas existências como cavalo, cervo ou javali. 

Mas vai ser na centúria de 700 aC quando nasce na Índia a expressom mais radical de veganismo nunca vista, o jainismo, reconhecível hoje por os seus monges apagarem a boca com um pano com o propóssito de nom engolirem acidentalmente insetos. Estes monges chegam mesmo até o extremo de consumirem unicamente vegetais mortos de maneira natural, como folhas de árvores caídas. Só eles, pois, sairiam indemnes da crítica, certamente injusta, que J. Campbell dedica aos vegetaristas ao assegurar eles nom serem verdadeiramente sensíveis por nom ouvirem gritar os tomates (como em certo sentido faram: plantas e árvores possuem áura e certo tipo de sensibilidade que lhes permite intuir as intençons dos indivíduos que as rodeiam). 


Tudo pola queixa dum Boi 

A Alma comum a todos os bóvidos, Gush Urvan, ergue um dia um laio ao Céu em que se queixa polos maus tratos que os humanos perpetram contra os indivíduos da sua espécie, torturados, sacrificados, devorados, e pergunta entom pola razom da sua existência (“para que é que me trouxe-ches a este mundo?”). Comovido por aquelas palavras Ahura Mazda decide enviar um sábio para nos ajudar a reconduzir a nossa conduta. Esta fermosa maneira em que o livro iraniano do Avesta descreve no séc.VI aC a chegada do profeta Zoroatro fai-nos pensar em que talvez nom seja tanto a certeza da morte a que liga a nossa espécie com a religiosidade, como o descobrimento da cruel natureza da vida e o poderoso instinto espiritual da compaixom a se rebelar contra ela: sentir-se nos demais, condoer-se, solidarizar-se, demostra que o nosso Eu nem só se reduze à própria pessoa, mas fai parte do Todo e, através dele, imortaliza-se.


O Imperador quere que comamos Carne

No Japom prévio ao século XIX, antes de que a revoluçom Meiji decida assimilar parte da cultura ocidental com fim de modernizar o país, o consumo de carne, sobretudo de gando e de cavalo, estava considerado “indecente” e fazia mao currículo para se presentar diante dos deuses. Como curiossidade dizer que a maneira de cozinhar carne mais popular na Galiza, o churrasco, lá recebe o nome de “churasuko”, estrangeirismo introduzido por mercadores portugueses. No século XIX, porém, promociona-se o carnivorismo na crença de a carne fornecer as pessoas de fortaleza física (também os hindus e as indianas, entre eles um jovem Gandhi, acreditavam terem sido dominados polos ingleses apenas por uma questom de hábitos alimentares, pois o hinduismo protege as vacas e o budismo, em geral, tudos os animais). Mas nem tudos os japoneses estam prontos para obedecerem Meiji: o socialista revolucionário Katayama Sen expressava uns sentimentos muito afins a qualquer camponês galego: “nascim numha granja e trabalhei nela. O boi era absolutamente necessário para arar, e nós queriamo-lo como a um membro mais da família. Eu costumava ir atrás dele e era precisamente o seu trabalho o que me fazia ganhar dinheiro. Tenho tantas lembranças daquele boi que nunca quereria comer carne”. Esta testemunha unida a o facto de muitas pessoas virarem para vegetaristas assim que adotam cans, parece demostrar que o respeito polos animais origina-se no conhecimento deles, e, do mesmo modo, a insensibilidade deriva da ignorância, quer da humanidade animal, quer da animalidade humana.
Mahatma Ghandi nun concurso agrícola en Londres. Bibliothèque nationale de France, département Estampes et photographie, EI-13 (2886)

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