CONTO DE ALDEIA. O CREGO BURLOM

Adaptado por Adela Figueroa Panisse
“E dormindo aqui ou acolá. Umas vezes num palheiro…”
Orixinal de M. Suárez de Concha

Na aldeia de Trasmonte havia um padre que gostava muito de fazer burla de seus paisanos. Nomeadamente quando os via que erão bem guiadinhos e de aspecto manso. 
Como tinha algo de soberbia, costumava alcumar a estes seus fregueses de pailans ou paifocos, com um aceno burlesco na cara. Ainda choscava os olhos quando falava de algum: 
-Isse é-che parvinho. É meio pailam. Pode-se fazer burla dele que nem conta se dá. 
O Crego, chamado Raimundo, não tinha criado nem criada que lhe parasse na casa, devido, precisamente a este seu caráter. 
Mas como precisava de alguém porque a casa não se arruma ela sozinha, aproveitou a missa do domingo para anunciar o seu pedido. 
– Meus queridos fregueses, Bem sabeis que eu preciso de ter a minha casa arrumadinha. Bem limpa e em ordem. Para estar em paz com o Céu e mais com a Terra. Mas o “langram” do Antonino preferiu marchar para Cuba que atender ao seu Padre espiritual. Agora, na minha casa, está tudo revolto e nem como bem porque eu nada sei fazer de cozinha. De maneira que agora ando eu na procura dalgum moço que queira levar as cousas da minha casa. Porque os padres necessitamos tranqüilidade para atender as necessidades da –i-alma dos paroquianos: 

“Mens sana in corpore sano” 
Rezemos todos juntos porque aginha apareça alguém que cuide deste pobre Padre. 
Um Padre Nosso e um Ave Maria, pólo santo ou santa deste dia 
Cadrou que , por aqueles dias chegou um moço novo a aldeia de Trasmonte. Chamado Brais. 
Brais acompanhava uma quadrilha de portugueses que vinham serrar madeira para fazer o piso da casa nova que mandara construir dom Carlitos o indiano. Trabalhavam com a serra de ar, que, nisso eram especialistas os carpinteiros de Portugal. 
Dom Carlos marchara de pequeno para Cuba. Por isso, na sua aldeia continuavam a chamar-lhe pelo diminutivo. Mas, como agora era rico, já lhe punham o dom, embora continuasse a ser Carlitos para todo o mundo de Trasmonte. 
Dom Carlitos , fizera muito dinheiro na i-lha. Tinha propriedades em Santiago e na Habana e, no Camagüei plantações de cana de açúcar. Agora queria mostrar a toda a vizinhança o seu grande sucesso, com uma casa que ia ser a melhor da aldeia. 
Os trabalhos de serraria iam já acabados e Brais não tinha ganha de voltar a andar por esses caminhos de Deus, na companhia dos carpinteiros portugueses. Não era por eles, mas sim pólos caminhos, umas vezes enlameados, outras secos de poeira que lhe ressecava a gorja, outras nalgum alpendre que lhes deixavam as boas gentes das aldeias. 
Estava farto de se molhar quando chovia e de abafar de calor quando o sol queimava. 
Queria vida tranqüila sossegada e a coberto. 
De maneira que depois da missa foi a casa do Crego, o Dom Raimundo. 
Este viu-no chegar pólo portão. A imagem do Brais não era muito graciosa: 
A pucha calada na cabeça ( tinha esse costume para se proteger do serrim), as tamancas gastadinhas e os ombros caídos . A jaqueta algo suja de restos da serraria da madeira e as calças gastadas e sujas pólos baixos. 
O pobrinho do Brais nom luzia muito… 
Bateu na porta de dom Raimundo e tirou a pucha educadamente, guardando-a entre as mãos em quanto olhava para o crego com um ar algo de borrego. 
Aí véu Dom Raimundo a sua oportunidade de fazer burla do moço. Sentindo-se superior, empoleirou-se algo nos calcanhares e perguntou: 
-Boa Tarde, Que é o que vês buscar por cá? 
-Boa tarde, Dom Raimundo. Disseram-me que precisava d’um criado. Eu venho pretender. 
-Bem está que procures trabalho. É isso bem melhor que andar tirado por essas corredoiras sem teito na cabeça nem cunca com verças que levar á boca. 
-E-lhe, sim senhor. 
-Pois, daquela, que é o que sabes fazer?. Cozinhas, limpas, e arrumas a casa? 
-Sei sim senhor. Que sempre trabalhei desde bem pequeninho, e a minha mãe, que em gloria esteja, bem que me ensinou. Ela nunca deixava que estivéssemos a folgar. Na casa sempre havia que fazer e eu ajudava-lhe em tudo o que ela me ordenava. 
-Pois isso bem está. Mas, para servires nesta casa nom abunda com saber isso todo. 
Tens que me entender bem quando eu te fale. 
-Sua mercê diga e eu respostar-lhe-ei. Falarão galego, nom sim? Eu isso entendo, e , ainda entendo bem o castelão e chapurreio-o tudo o que eu puder. 
-Entra logo que che vou fazer umas perguntas. Vamos- te por a prova para ver se és espelido como dizes ser. 
O padre viu o seu momento de se rir do pobre moço, e começou assim: 
Sinalando as escadas da casa, perguntou: 
-Como se chama a esses chanzos que sobem para o andar de cima? 
-Ai, Sr cura, chamaram-se escaleiras… 
-Nom, burram!, nesta casa chama-se-lhes “escada”. 
-Olha aí, por esta vez passo-cho, mas para a próxima que falhes dou-te com este pau no lombo. 
O Brais, torceu algo o focinho, mas, como queria o trabalho, calou e olhou para o Dom Raimundo na espera da próxima pergunta. 
-Vamos ver, pailam, como se di, estar a dormir a sesta? 
-Ai Sr. cura, na minha terra dize-se dormir a sesta, eu nom lhe sei outro jeito. 
Poom! Um pau no lombo do Brais. 
-Que não burram!, Dize-se “estar em braços de Alegria”. 
O moço encolheu os ombros ainda mais do que os tinha e pensou, “ Estes senhoritos, são -che bem esquisitos. Carai para o padre, vai para braços de alegria todas as sobremesas. Quem coma ele!” 
-Atende lacazam!. Como se lhe chama a esse animal que tens ai diante. E sinalava-lhe um gato, gordo e bem mantido que dormia ao pé da lareira. 
-Ai Sr cura, isso sim que lho sei: Chama-se Ghato! 
O Brais retrucara. Cuma voz clara e segura pólo que lhe parecera uma pergunta fácil. Ai!, mas caiu-lhe um pau no lombo e ainda escutou o riso do cura a lhe dizer: 
-Que nom, e nom!. Nesta casa a esse animal, chama-se-lhe; “ Triscalaratas”. 
Este pobre homem deveu tolear. Será de viver só que os curas que nom têm ama, acabam mal. Já mo dizia minha mãe”: 
Cuidate Brais de homens que vivem sozinhos. O Homem que nem fuma nem bebe vinho o demo lhe leva por outro caminho! Mas, este malvado que me está a moer de paús vaimas pagar!. Abofe que sim! Como me chamo Brais! 
E, depois disto rosmar, com a mesma, revirou a cara para o Padre disposto para a próxima pergunta: 
-Que mais se lhe oferece a vossa mercê? 
O Dom Raimundo sinalou-lhe o lume da lareira, e disse-lhe: 
-Como se chama isso que da tanto calor e tanto reluze? 
-Ai, meu senhor, na minha casa chamavam-lhe lume, mas cá….. 
Pumba! Outro pau que foi cair no lombo do Brais. 
-Nesta casa isso é o Resplandor. E assim será como tu lhe vais chamar desde agora! 
-Bem, vou-te fazer a última pergunta e se ma sabes , deixo-te ir em paz e pôs-te a traba-lhar que já são horas de fazer de comer. 
-Diga logo, Padre, 
O Crego abriu a torneira, que naquela casa havia água na cozinha, que lhe vinha duma mina que tinham no alto do monte. Chegava pólo pé fresquinha e limpa e bem abunda. 
O prove do Brais que já nem sabia como sair do apuro, respostou rápido, para acabar quanto antes ainda que levasse outro pau. 
-Pois, pois, na minha casa chama-se água. E afastou-se rápido para esquivar o golpe que, inevitavelmente lhe caiu no lombo. 
Pum!. Animal. Burricam!. A isso chama-se-lhe “Abunda”! 
-Pois se o senhor o diz assim será… 
O cura riu-se as gargalhadas, que nem se molestou em dissimular diante do rapaz. 
-Bem, ainda que nom pareças muito avisado, como tenho necessidade dum criado vou-te contratar, mesmo um burrinho coma ti. De maneira que já sabes, de momento nom te vou pagar nada. Vens póla comida e a dormida. Um traje novo ao ano e, se estou contento contigo, já falaremos do salário. 
O Brais aceitou, entre outras cousas , porque os portugueses já tinha ido embora e , agora ele nem tinha onde dormir.Mas guardou-lhas para melhor momento. Sim hom.. ele ir-se-ia vingar daquele presumido de cura e burlom que lhe fez passar em ridículo como se ele fosse parvo. 
E Brais sabia bem que ele parvo nom era. 
Fez a comida, arrumou a cozinha e , desde que comeram, o crego disse-lhe que ia para o andar de cima dormir, 
-Olha Brais, Cuida que ninguém me moleste. Que eu preciso descansar que isto de dizer missa e fazer a catequeses é-che muito cansado. 
-Tá bem, vossa mercê. Vai tranqüilo que eu tenho muito que fazer por cá. 
O Brais, desde que o cura desapareceu escadas acima, armou a sua vingança: Agarrou ao gato e atou-lhe um fachico de palha no rabo. Logo prendeu-lhe lume e ceivou ao animal que fugia espavorido com o fogo ardendo no seu rabo. O pobre gato ia de quarto em quarto tratando de se libertar daquele lume em quanto ia prendendo por toda a casa. 
O Brais, que viu como o lume ia prendendo nos cortinados e nos diferentes quartos da casa, começou a cantar bem alto para fazer-se ouvir:: 
Ai Sr Cura, Que estás em braços d’Alegria Aí che vai o triscalaratas 

Pólas escadas arriba, 

Cuuubeeerto de resplandooore! 
O Brais repetia a sua canção como se for uma ladainha. Uma e outra vez: 
Ai Sr cura…. 
O dom Raimundo que isto ouviu, julgou que o pobre do criado tinha-se virado louco. E , ainda pensou se nom seria dos golpes que ele lhe tinha dado. 
-Pobre rapaz! Este toleou!. Vaia moço que fui colher para criado. E nom está a fazer uma canção com as palavras que eu inventei para me burlar dele?! De certo que lhe virou o sentido. 
Mas o gato ia estendendo o lume póla casa e esta começou a arder por todas as partes. 
O cheiro a fume chegou até o nariz do cura que se ergueu do leito e começou a chamar desde a janela: 
-Vizinhos água!!! Que há Fogo!! Vide ajudar!!! 
Ajuda!!! Ajuda!!. 
Mas, o Brais, desde outra janela gritava também: 
-Abunda vizinhos,! Abunda!! 
Os vizinhos que já chegavam com os caldeiros carregados d’água ao escutar que abundava, deixaram-nos no chão. 
-Ah, poi logo, se abunda é que nom faz falha água. 
E a casa acabou por arder toda. 
E assim foi como o Brais a quem o cura soberbo, pretendeu humilhar, passou de burlado a burlador, e o padre de burlador a burlado, a-prendendo que nom se pode fazer burla dos mais humildes, porque podem resultar mais listos do que um por muito abastado e rico que for. 
Este conto contavam-mo a mim de pequena para me ensinar que nunca se deve desprezar ás pessoas pólo seu aspecto e , que mesmo parecendo mais humildes, podem ser mais listas das que aparentam mais fachendosas como foi o caso do Cura de Trasmonte e de seu criado Brais, que demonstrou ser bem mais listo que ele.

Partillar

Deixa unha resposta

O teu enderezo electrónico non se publicará