O MONTE DOS RAPOSOS

Adela Figueroa Panisse

Dedicado a Manuel Lugrís Freire

Sada, noutro tempo, era uma vila que, «a xentil e bonita non lle empata ningunha outra vila mariñeira… …a vila está no final de uma campiña feiticeira e ridente guardada pelo Couto e pelo alto de Ouces, como uma xóia, para que não a firam os ventos» (Manuel Lugris Freire. “O Escarmento”). 
Sada, a vila dos verões da minha infância, “perolinha deitada no mar.” 
Os que a conhecem agora podem desconfiar desta descrição, ao contemplar a invasão de prédios de apartamentos, e de betão que mascara a praia, desfigurando-a e invadindo de cimento o formoso contorno verde que a envolvia. 
Já não há barcas na praia, nem carpinteiros de ribeira. Não há lavadoiro onde iam as moças lavar e falar de todo o que acontecia. Onde as crianças íamos ajudar a tender a roupa ao clareio. 
Já não há branhas cheias de água onde havia peixes, que nem sei se eram comestíveis 
A Sada das minhas lembranças de meninha: uma perolinha do mar abrigada por lenes colinas, entre as que se encontrava o que davamos em chamar o “Monte dos Raposos” que cuido eu, deve ser o que Lugris cita como o de Lixandre no seu conto. 
Nos tempos da meninice acontece que os meses têm dias muito longos, os dias horas muito compridas e estas, ainda, estão cheias de minutos enormes. 
As tardes de verão da infância são imensas. As crianças, as vezes não conseguem encher esse tempo de lazer. Reclamam então a atenção dos maiores, que, normalmente estão ocupados em importantíssimos “negócios” que não incluem andar de brincadeiras com a gente miúda. Por isso encomendam-lhes tarefas que as mantenham ocupadas e que os libere a eles de estarem sempre atentos aos seus caprichos. 
Compre, já que logo, discorrer algo que ocupe o tempo da rapazada. 
E, que poderia haver mas aliciante para umas crianças que ir caçar raposas ao monte? 
Aquela empresa podia encher essas compridas tardes de tempo esticado. Incluía passeio, merenda e aventura. Poderíamos dizer, em terminologia de hoje, que era uma atividade criativa, e interdisciplinar. 
Julgávamos que os animais teriam encontrado as suas tocas nos inúmeros furados que víamos no monte no-la vendia sem mais. 
Assim que parecia que ele também participava da ideia de que iríamos fazer uma boa caçada. 
Buscamos um saco grande, e um pau. Pusemos água nas cantimploras, colhemos cadansua merenda e fomos caminhando até o monte Lixandre, para nos, Monte dos Raposos. 
No primeiro dia não caçamos raposo nenhum. Podia ser que não tivessemos sorte bastante. Haveria que provar mais vezes. 
E provamos. Todas as tardes em que não sabíamos em que gastar o nosso tempo. 
Os mais grandes tomavam conta do saco e mais do pau. Os pequenos iam atrás. 
Lembro colocar com muito cuidado o saco tapando a boca da toca. Depois de termos votado dentro a pedra de carburo e água para que fizesse fumo. 
-Atrás que vem!! 
Mas nunca saiu nenhum raposo daqueles tobos que nós tínhamos encontrado no monte. 
Se calhar existia outro buraco e o animal conseguira fugir por ali… 
Seguro que era por isso.

O meu tio Enrique compôs uma canção para que a fossemos cantando pelo caminho. Dizia que se berrarmos bastante mentres caminhávamos, os raposos iriam se agachar nas suas tocas pelo medo que lhes metia o nosso barulho. 

E ali era onde poderíamos apanhá-los. Segundo eu lembro o hino era algo assim: 

Adoremos todos ao caimam 
que nos livrou do inimigo o maçapam. 
Lor a ele que por vales e por montes 
liverou-nos do feroz rinoceronte 
Lor a ele que é mas fiel que o mesmo cão 
Lor a ele 
Lor a ele 
Lor ao caimam. 

Berrávamos bem cantando pelo caminho para que os raposos tivessem tempo de se esconder onde nos os podermos encontrar. 

Fumos muitas vezes caçar raposos ao Monte… 

Em todos os anos em que íamos passar o verão a Sada. 

Durante aquelas longas tardes de verão em que o tempo esticava e dava para fazer tantas cousas… 

Na drogaria da esquina, da rua Linares Rivas, já sabiam para que queríamos o carburo e o senhor muito sério vendia-nos uma pedra sem fazer o menor careta. 

Fui muitas vezes a aquela aventura. 

Sempre com a esperança de caçar algum raposo, e poder monstra-lo pelas casas da vizinhança para que nos dessem ovos em agradecimento. Até temos levado uma cestinha . Imaginava chegar a casa com as maus cheias, e os ovos no meu queipo. 

Nunca tivemos sorte pelo que a raposos se refere. Merendas, no monte, sim que fixemos umas quantas… 

Poida que o meu pai e o meu tio não conhecessem o conto de Lugris, o do Escarmento, e não sabiam que já havia tempo (alo pelo 1908 mas ou menos) um tal senhor Lourenzo da Chaburra tinha espetado, no curuto do monte, um raposo que caçara, e que tinha fama de que andava a comer nas galinhas. Fizera isso segundo lhe aconselhara a senhora Pepa a Montañesa, farta de que as suas galinhas desaparecessem do curral. Ficando como rasto, apenas um feixe de plumas. 

Isso seria o “ESCARMENTO” para os outros raposos. De maneira que fugir iriam longe por medo que lhes passasse a eles o mesmo. 

Asi deveu ser. Com segurança. Os raposos deveram ficar escarmentados desde o 1908 em que Lugrís escrevera o conto, pois raposo não caiu nenhum no nosso saco em todas as vezes que fomos ao monte Lixandre. 

Ou também poderia ser, que a cova tivesse outra saída, e que o raposo, ao sentir o fumo do nosso carburo fugisse por ela? Ou que os nossos cantos não lhes assustassem o bastante para lhes fazerem guardar-se nas suas tocas de maneira que andariam pelas redondezas a pilhar galinhas? ou… Sei lá… 

O caso é que eu não vim raposos, ao natural e de perto até bem mais tarde. 

Séria nos anos 97 ou 98, por terras de Lugo andando de passeio com um grupo de amigos pola chaira perto do rio Minho. Entre as suaves colinas verdes que caracterizam a paisagem do arredor da cidade. Por Ombreiro. 

Numa volta do caminho lá estava o animal: um grande e formoso raposo morto, empanturrado sobre um penhasco. Parecia abraçar o penedo. Lembrava a essas imagens da banda desenhada em que sempre se esnafra contra uma pedra quando vai perseguindo algum animal ou humano. 

Julguei-o um animal de tamanho respeitável. Grande demais para umas crianças dentre 8 ou 12 anos como éramos nos no tempo que os íamos caçar em Sada. 

Disseram-me que era o costume. Por o animal a vista como escarmento de outros raposos, para que não voltassem roubar galinhas nem ovos. 

Comentei aos meus amigos que, quando eu era menina ia caçar raposos com as minhas primas e os meus primos. Sem me dar conta do despropósito comecei a relatar a história que apareceu, pela primeira vez ante mim com toda a sua desmesura. Não pude continuar… 

As gargalhadas dos ouvin-tes, confundiram-se com as minhas interrompendo o relato. 

Só foi naquele momento que percebi como os nossos maiores nos tiveram enganados. E entretidos. E por tanto tempo! 

No universo das minhas lembranças infantis, algo mágico, quase épico deixou de existir para sempre. Como a Sada da minha infancia.
Imaxes que ilustran esta publicación por orde de aparición:
“O difícil será meter o raposo no saco” Orixinal de M. Suárez de Concha
Ilustración de F. Cortés para o conto “O escarmento” de Lugrís no volume Contos de Asieumedre. Cedido pola Real Academia Galega

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