DE QUANDO MUDAMOS PARA REINTEGRATAS

Manuel B. Dans

Quem nos mandaria ensarilhar-nos nestas leas académicas, capazes de tolear a cabeça do mais farruco? Com franqueza: somos como esses nenos revoltados que nom têm paragem e malmente ficam quedos nalgumha parte: Já havia muito tempo que rejeitáramos o castelhano que tam bem nos aprenderam na escola (eu, de neno, queimava várias horas diárias na casa a fazer tarefas de língua espanhola até que consegui tirar boas notas). Depois de banirmos da nossa cotidianidade o castelhano apreendido naquelas aulas e nos entregarmos com paixom ao galego oficial, fomos conscientes de que a norma em que estavam escritos os nossos textos já nom nos satisfazia embora termos atingido um grau razoável de competência nela após lustros de aprendizagem. 
 Às vezes me pregunto se nom seremos demasiado puristas ou se quadra algo obsessivos na procura da mais requintada Verdade filológica… Ou quiçá desfrutamos tanto das palavras que, afim de nom nos aburrir, jogamos com elas a escrevê-las de jeito distinto cada certo tempo. Na opinom de um meu conhecido, Javier Castro, trabalhador e galeguista, nós todos apenas somos uns sentimentais que vivemos a vida com a olhada virada cara ao passado, preocupados por umhas nossas origens que nom podemos nem queremos esquecer. 
ENTENDERÁ-ME MINHA MAE? 
 E deve de levar razom o Javier: nos séculos XII e XIII trovadores galegos de Vigo, Negreira, Compostela ou Betanços redigiam as suas cantigas de um jeito mui familiar para um reintegracionista: “Pelo souto de Crexente uã pastor vi andar // muit´alongada da gente // alçando a voz a cantar…” Ou: “A dona que eu am´e tenho por senhor // amostrademi-a Deus se vos en prazer for…” 
 No meu caso foi ao repassar estes poemas, precisamente, quando decidi mudar de norma para estabelecer umha continuidade coerente com as nossas autênticas raízes lingüísticas, e isso apesar do risco de minha querida mae nom entender bem artigos como o presente. Da outra banda muito nos amolava a normativa oficial nom abranger a riqueza fonética do galego ao empregar, como matéria prima, ortografia castelhana. De resultas nom se distingue entre vogais fechadas de abertas, nem discrimina a realizaçom velar do N da sua pronúncia palatal, assim como só representa un só S. Para eu caricaturar as eivas do oficialismo gostava de pôr o exemplo de um inglês obrigado a escrever coma nós, á castelhana; assim, no canto de redigir “you are a rose in the God´s garden” deveria fazê-lo como “iu á a rous in de Gods gaaden”. 
 Para os bem pensados a razom de ser do oficialismo teria a sua origem em popularizar o galego escrito num momento histórico difícil, quando todos estávamos alfabetizados em castelhano e as propostas reintegracionistas podiam resultar chocantes aos nosso olhos; trataria-se, já que logo, de umha escolha inspirada na pedagogia, e que ainda hoje teria toda a sua razom de ser. Pola contra, os mal pensados enxergam no oficialismo umha argalhada espanholista com a que isolar o galego da lusofonia em cujo berço fica filologicamente incluído, e privá-lo, assím, da sua dimensom mais prática: a comunicaçom escrita com duzentos cinquenta milhons de pessoas no mundo (Brasil, Angola, Portugal, etc…), vantagem que poderia ajudar a salvá-lo da sua mui possível futura extinçom. 
 TEMOS SÚPER-PODERES! 
 Assim e todo, no meu caso particular nom se tratava da procura dessa practicidade: apreendi (e ainda sigo ao labor) a ortografia reintegrada simplesmente porque já nom podia continuar a escrever na oficial sem experimentar certa frustraçom. 
Felizmente, ao pouco de começar nesta nova andaina embeliquei com umha inesperada surpreesa ao descobrir-me investido de uns novos súper-poderes que me permitiam compreender português escrito e até redigi-lo se for necessário, o qual, naturalmente, repercute na compreensom da fala. Com esta nova habelência por equipagem as viagens aos países lusófonos tornavam muito mais atrativos do que antes. Para mim foi emocionante visitar Lisboa e comprovar, maravilhado, como todo lá estava escrito em galeg… perdom!, em português. O país vizinho pode ser um paraíso en dous sentidos: do ponto de vista do espanholista adoita ser o lugar onde passear un seu injustificado complexo de superioridade; do ponto de vista do galeguista é o Estado onde a gente fala e sente a mesma língua e a mesma saudade que as nossas. Ruas como “Campo das Cebolas” ou “Travessa do Raposo”, no histórico bairro da Alfama, além de engraçados nomes, tinham um sabor mui familiar. Foi assím como me aledei, mais do que nunca antes, da existência de Portugal, da sua independência, mesmo das derrotas militares castelhanas como a de Aljubarrota (quisseram mover-lhes os macos até o Atlântico), porque o idioma galego, o nossa maneira de entender o mundo (ou o jeito em que a Natureza se expressa através do fenómeno humano) sobrevivirá a sul do Minho (e além o mar) seja o que for o que aconteça com ele na Galiza.

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