CARTA A JOSÉ MIÑONES, MEU BISAVÔ

María Pérez Miñones

Caro bisavô:

Sempre soubem que te mataram injustamente; sempre o soubem e no entanto, nom foi até há ano e meio aproximadamente que me dei conta do tremendo que foi aquilo. E nom digo tremendo porque fosses meu bisavô, em absoluto, porque poderias ter sido qualquer outra pessoa. Eu nom gosto de que se mate gente, nunca gostei. Sempre fum revolucionária, reconheço- o, sempre sentim um compromisso com a luita, mas com a luita através da palavra. O mais singelo é colher umha arma e botar-se à rua a matar gente, a matar pessoas que um crê inimigos quando onte eram vizinhos ou amigos. Isso é o mais fácil, mas convencer através da palavra, saber falar, saber escuitar, em definitivo, lograr a comunicaçom, isso nom é tam doado, mui poucos sabem fazê-lo.

Eu teria gostado de conhecer-te, como conhecim minha bisavoa (tua mulher) mas nom foi possível porque com 36 anos, dous mais dos que tenho eu agora, um esquadrom de fusilamento acabou com a tua vida. O dia que li algumhas das cartas que tu mesmo escreveches e enviaches desde o cárcere da Corunha, esse dia, o meu coraçom escachou em anacos, esse dia tomei consciência de que neste país houvo umha guerra civil, de que neste país centos de pessoas morrêrom e com elas as suas vidas, as suas ilusons. Porque morrer, efetivamente, é algo natural, mas que morras porque te matem nom o é. É raro que o resto dos animais que existem no mundo matem outros da sua mesma espécie, porém, o ser humano fai-no. Fai-no movido polos seus sentimentos, polo seu ódio, pola sua inveja, pola sua desesperança quiçais. Os homes mortos numha guerra tornam cifras. Já nom som indivíduos com os seus nomes, com as suas famílias, com os seus projetos, com os seus desejos… já nom o som, convertem-se num número. Para mim tu nunca serás um número; nem ti, nem nengumha das pessoas que morrêrom luitando antes, durante e depois da guerra civil espanhola de 1936, como tampouco o som o resto de seres humanos que morrem cada dia noutros lugares do mundo pola mesma causa.

Tua bisneta herdou muitas cousas boas de ti e isso orgulha-me. Enche-me de satisfaçom ter um bisavô que luitou por melhorar a vida do seu povo, da sua terra a que tanto amava. Enquanto escrevo decato-me de que hoje é 6 de Maio de 2011 e que tu nasciches 1 de Maio do ano 1900. Nasciches no mês das flores, no meu mês favorito, no mês em que o verde dos campos, das árvores, se enche de cores, quando a primavera nos mostra todo o seu esplendor, nasciches no mês em que há apenas um ano casei. Quando tenha filhos contarei-lhes a tua história. Muitos dim: “Para que a memória histórica? Que parvada! O passado cumpre esquecê-lo”. Pessoalmente penso que nom, que é necessário conhecer a nossa história, tomar consciência das barbaridades cometidas para ser capazes de adoptar outras formas, para que nom se repitam umha e outra vez as mesmas atrozidades.

Talvez seja umha ilusa mas sempre digo que, enquanto houver vida, há esperança. Nom deixarei que a tua memória se perda. Fuches um home de bem. Luitador, comprometido com umha causa justa. Hoje, como tantos outros dias, lembro-te e dou graças porque polas minhas veias flua parte do teu sangue. Segues vivo em mim e assim será até o dia da minha morte.

Sempre, tua bisneta

Em honra de Pepe Miñones (meu bisavô materno) fusilado no “Campo da Rata” 2 de Dezembro de 1936.
Este texto foi originariamente escrito em castelhano por Maria Pérez Miñones. Posteriormente traduzido ao galego-potuguês normativo da AGAL por Iago Barros Minhons, curmao de Maria e também bisneto de Pepe Miñones.

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