RICARDO FLORES: VINTECINCO ANOS DEPOIS…

José Mª Monterroso Devesa
I. UMHA NOITE EM SADA
No mês de janeiro de 1985, aproveitando a presença de Ricardo Flores na Terra (ainda voltaria, que eu lembre, em 1990, morrendo, com 99 anos, em 2002), fixose-lhe umha homenagem no marco da exposiçom, a el dedicada, do pintor corunhês, de Monelos, José Fernández Sánchez, a qual tivo lugar na Sociedad Recreativa, Cultural y Deportiva de Sada.

Concretamente, o dia 26 desse mês deu-se um concerto da Coral Polifónica Aires de Carral, previamente tocando a quem subscreve falar sobre o amigo, tal como recolhe a crónica do 29 seguinte, em El Ideal Gallego, o corresponsal Víctor Castro, que passamos a traduzir parcialmente:

Corredoira Conde [presidente da Sociedade]
cedéu a palavra a José Maria Monterroso, o
qual, com verbo fácil, relatou algumhas das passagens
da vida de Ricardo Flores, ao que conhecéu
numha primavera portenha, umha noite pola
avenida de Belgrano e avenida de Mayo.

Monterroso pujo fim à sua intervençom
lembrando a primeira cantiga de Flores,
quando, mui neno, no seu querido lugar de
nascimento, Sada d’Arriba, ajudando seu pai
nas tarefas agrícolas, víu-lhe às mentes, em
quanto aguardava pola chegada de sua mai,
que acudia a lhes levar o almorço, umha estrofe
que dizia assi:

Como me doi a cabeça…” etc. [ver mais
adiante].

Monterroso e Ricardo Flores, este visivelmente
emocionado, fundirom-se numha aperta,
mentres o público que encia os salons sociais
lhes dedicava umha forte ovaçom.


II. UM LIVRO ESQUECIDO
Foi no seguinte novembro quando, com “Buenos Aires 1984” na portadilha, saíu do prêlo o livro de Ricardo Escolma de cantigas galegas cum Advertimento do autor e a ausência do prólogo que fixera o redactor destas linhas… cinco anos antes: datado na Corunha o 1 de maio de 1980 (aniversário de Ricardo), devéu ficar traspapelado nesse mesmo prêlo que imprimiu o livro por conta de Caixa Ourense e iniciativa do seu presidente daquela, José D. Posada González.
Aproveito a ocasiom que me brindam os Amigos de Ramón Suárez Picallo, de Sada, para reproduzir esse prólogo e, de passada, se houver espaço, as cantigas referidas à sua vila que Ricardo inclúe no volume. Dizia o malfadado prólogo:

Se pôr umhas linhas aclaratórias neste livro
de Ricardo Flores é para mim prazenteira honra,
nom podo ocultar o simultâneo enrubecimento
que me produz o descer a certas miudezas
explicativas que puderam lixar a cristalina
harmonia desta Escolma de Cantigas Galegas.
A cristalina expressom do génio poético
popular, peneirado pola sensibilidade literária,
e nom menos popular, dum home que, tam
arredado fisicamente da nossa Galiza, a recriou
dia trás dia, para si e para os outros, durante
dúzias de anos.

E recriou-na nom só exercendo o jornalismo e escrevendo e dirigindo teatro, mas tamém colheitando
estas pérolas líricas, muitas da sua memória dos tempos moços -e já recolhidas antes de agora-, muitas outras inéditas na Terra, como celme que estas som da saudade -ou morrinha- dumha parte tam importante do povo galego a morar, e errar, fora e longe das nossas fronteiras naturais.

Naquela lonjania em que Ricardo Flores me déu, nom hai muito [1979], e numha primaveral noite portenha, um adianto de viva voz desta Escolma.

Chegado aquí, nom podo por menos que reproduzir, bem que seja em parte, as palavras com que Ricardo me explicitou, emocionadamente, a sua experiência vital coa cantiga de arada (para nenos) da página 175: O fogar onde eu vim a luz primeira era labrego e um pouco marinheiro, por parte de meus irmaos.

Um dia pola manhá cedinho saímos para arar umha
leira nossa. Minha mai, tal como fazia acotio, saía
para a praça, e quando voltasse levaria-nos o almorço.
A mim já me tardava o vê-lo chegar, para darlhe
ao estómago o que rilhando me pedia; entom, eu
olhava para onde tinha que vir a cesta, mais do que
para onde os bois tinham que pôr os pés; e a voz de
meu pai, cada vez erguia-se mais forte:
Chama bem os bois, neno! Nom deixes saír o boi
do rego, rapaz!” Numha destas, cumha toada qualquer
que me petou, botei ao ar umha cantiga: “Como
me dói a cabeça,/ como me dói o pescoço/ de mirar
cara o portelo/ a ver se vem o almorço.” Meu pai
chimpou-me umha reprimenda dos demos. Nisto
aparecéu o que tanto eu arelava, e já cabo de nós
minha mai, meu pai cravou mais a fondo a relha do
arado e berrou, para deter o andar dos bois: “Xô!”
Minha mai pousou nas nossas maos a cunca do
almorço; meu pai sentado na rabela do arado e eu
tamém sentado nos terrons da soma, cos pés dentro
do rego, fijemos pola vida. Entre culherada e culherada,
meu pai foi-lhe contando a minha mai o meu
recente feito lírico, e ela, que estava de pé, fijo-me
umha suave frega coa mao na cabeça, em som de
alouminho. E nesse intre os três éramos a sorrir.
A música que tem aplicada (a cantiga), é do arquivo
da minha memória, de quando tamém era
neno, aprendida dos beizos dum velho do nosso rueiro,
muito amigo da nossa família, a quem eu gostava
de ir visitar à sua cabana de palha, que se erguia na
eira, para ver como fazia os garruchos, queipos pequenos
onde os marinheiros levavam os seus víveres
quando iam para o mar; pois ele, mentres ia tecendo
com varinhas de vime aqueles objectos de artesania,
ia entoando umha melodia, que pola alussom da letra,
devia ser de arada.

Que mais dizer depois de tam formosas quanto íntimas lembranças, so pena de ser reiterativo e extenso em demasia? Somente acrescentar que Ricardo Flores, velho -mas moço- galego-rioplatense, dá a esta Escolma de Cantigas Galegas, exquisitamente construída, umha sábia e nom freqüente disposiçom, a partir da classificaçom musical – sobre a literária, formal ou temática- das mesmas.

Cabal conhecedor da língua, pola sua origem e o seu quefazer cotidiano, Ricardo sumou-se, hai bem de tempo e entre os primeiros, a esse conjunto de galegos que pretendem para ela a dignificaçom a que, como património popular e galho viçoso do comum romance galego-português, tem direito: daí a ortografia histórica evoluída que o escolmador utiliza.

Mas ainda andou ele mais: e assi foi como levou a sua dedicaçom a decantar as quadras para eliminar o que -talvez mais por umha deformaçom produto da tradiçom oral, que por um defeito nato- supujera merma da enxebreza lingüística dos cantares: o resultado, logo de empregar um respeito e rigor absolutos, é, como os leitores poderám comprovar, bem gorenteiro.

Bem haja Ricardo Flores por este muito generoso agasalho que nos fai aos compatriotas dumha e outra beira deste mare nostrum.
Corunha, agosto de 2010.
Partillar

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